segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Os malditos taxistas

A briga com os taxistas




Vamos para a segunda parte da história do começo da Uber.

Ela chegou no Brasil, e permitiu que pessoas comuns com seus carros comuns, passassem a fazer viagens levando passageiros por dinheiro.

Em Campinas, isso é proibido por Lei. Transporte remunerado de passageiros é permitido exclusivamente para veículos com placa vermelha, e placa vermelha em carro de passeio é só para Taxi.

Então nós Ubers tínhamos 2 problemas: 
- A fiscalização de transito, buscando apreender os 'irregulares'
- Os taxistas, que vinham perdendo clientela pros Ubers.

A Uber tinha um advogado a disposição, pra tratar de carros removidos ao pátio por 'transporte irregular de passageiros', prometia arcar com todos os custos de ter o carro preso, multas e danos ao veículo causados por taxistas.

Acredito que você, meu leitor, deve se lembrar que em 2016 era comum aparecer no jornal que taxistas quebravam o carro dos Ubers. As vezes, até agrediam os motoristas fisicamente.

Entrei nesse mundo sabendo desse risco, mas o ganho era alto demais e o risco era aceitável.
Quando a Uber começou, era uma panelinha de motoristas e passageiros. O nível dos passageiros era alto, por exigir cartão de crédito válido no ato do cadastro. Quem usava o serviço, eram os ricos e os universitários.




Toda sexta feira, nos reuníamos próximos as universidades em Barão Geraldo, afinal a gente precisava de numero de viagens, não de dinheiro. E lá, fazíamos 3, 4 viagens por hora levando a galera das republicas para as festinhas locais.

Imaginem a cena: No McDonald's de Barão, ficavamos eu com o Jetta, Paul com sua Outlander, um gordinho que tinha um Fusion, outro que tinha um Peugeot 407 e um cara com um Azera. Todos pretos.
Era só a nata da Uber, e tinham acabado de implantar a tarifa dinâmica em Campinas.
Explico: Quando tinha mais gente chamando do que carro disponivel, a Uber aumentava o preço da viagem. Quem estava disposto a pagar 2 ou 3x o valor da corrida, tinha carro de imediato. Quem não tinha grana, esperava o preço baixar.


A Uber estava se popularizando, tinha mais gente querendo usar o serviço do que carro disponível. Os preços subiram e saiu o Gideão pra pegar o primeiro passageiro.
5 minutos depois, ele volta afobado pro McDonald's falando: Os taxistas estão jogando pedras nos carros da Uber. Não vão pro Campinas Hall, pq falaram que vão quebrar todo carro preto que passar por lá.
Rimos muito, e decidimos encerrar a noite por ali mesmo. Melhor ir pra casa com o carro inteiro, do que se arriscar por mais uns 50 reais. E todos entramos em nossos carros e seguimos para Campinas.

Atenção ao segundo comentário.

Eu pensei: "Ahn cara, eu não acho que vão quebrar meu carro." E liguei o aplicativo.
De imediato, caiu uma viagem no dinâmico 3.0x. Liguei para a passageira e falei: "Olha, estão querendo quebrar os carros dos Ubers. Saia do Campinsa Hall e vá andando em direção a ponte. Te pego no final da ponte, pode ser?"
E assim foi. Fiz o retorno e voltei pra pegar o grupo de meninas.
Quando estava chegando em frente ao Campinas Hall, um grupo de taxistas entrou na frente do carro. Eu baixei marcha e acelerei, ia levar aqueles cuzão tudo no peito se não saíssem kkk.
Passei, mas começaram a jogar pedras no meu carro. Levei uma pedrada no parabrisa, encontrei o grupo de meninas, parei o carro e pedi para que elas entrassem logo. Os taxistas vieram atrás de mim, jogando pedras e o que mais podiam.




Acelerei e fui fazer a entrega dos passageiros. A corrida deu 15 reais, e eu tinha perdido meu para-brisas.
Aí decidi que realmente deveria ir embora pra casa. Porém esses porcos malditos me emboscaram e me perseguiram... Pulei o canteiro central pra escapar na contra mão, e um taxista numa palio weekend começou a me seguir.
Nunca que aquela bosta ia andar junto, claro. Cheguei num ponto onde tinha uma grande valeta, e tive que diminuir e passar bem devagar pra não perder meu para-choque... Nesse momento o taxista maldito da palio weekend que vinha embalado, não parou e afundou a traseira do Jetta.
O carro dele parou, e eu segui pra casa.

Bom, tinha me fodido. Os danos foram no para-brisa, para-choque dianteiro, para-choque traseiro e tampa do porta-malas. 

Como a Uber dizia que pagaria qualquer reparo oriundo de danos causados por taxistas, liguei no 0800 de emergência da uber e relatei o ocorrido.
Meu carro era novo, então mandei na Volkswagen para fazer o reparo.



E a Uber realmente pagou o preju. R$9.920,00 pelo reparo, e ainda pagou a semana que fiquei com o carro parado.

Depois de alguns meses tive o carro quebrado novamente por taxistas, e a uber novamente pagou sem reclamar.

Aí veio o problema: era real o ódio dos taxistas, e fazer viagens na noite era realmente perigoso. Nossos carros começaram a ficar marcados pelos porcos e sempre rolava uma confusão ou outra.

Nosso ponto de encontro era o McDonald's da norte-sul, e combinamos que caso um taxista viesse querer arrumar confusão, deveríamos seguir sempre pra lá.
E uma semana depois, após desembarcar um passageiro no cambuí, fui seguido por um taxista. Fui pro Mc e tinha uns 10 ubers por lá. O cara usou o radio taxi pra chamar outros amigos, e em minutos apareceu um monte de taxista. Virou um salseiro do caralho, todo mundo se xingando e finalmente a policia chegou para apaziguar.

Diante do ocorrido, a gerência do McDonald's proibiu que os ubers ficassem por lá de noite e então nos mudamos para a Dpaschoal.

Nessa época, ficou difícil trabalhar por causa da represália. Toda hora tinha um taxista na bota enchendo o saco, eu vivia fugindo porque meu carro tinha ficado conhecido e foi aí que a Uber deu o primeiro 'golpe'.

Na noite pro dia, tirou os incentivos. Ou seja: dali em diante iriamos ganhar apenas o valor que fizessemos nas viagens, sem nenhum adicional por ficar ou não Online.

Acabou-se o que era doce.


Junto com isso, implantou um sistema de recompensas por indicação de motoristas.
Cada 'amigo' que eu colocava pra dirigir na Uber, recebia 400 reais. Com isso, a quantidade de motoristas aumentou MUITO, e a quantidade de passageiros não acompanhou. Tu ficava online o dia inteiro e malemal fazia 100 reais. Foi um péssimo mês, eu só consegui tocar o barco pois tinha uma grana guardada da época de vacas gordas.

Fizemos um 'protesto' contra a Uber, pedindo segurança e controle dos motoristas. Fomos na frente da prefeitura e fizemos um salseiro do caralho... E a Uber encontrou uma solução para nos atender.


Decidiu que dali em diante, qualquer mero mortal poderia chamar um Uber. Passou a aceitar pagamentos em dinheiro, visando aumentar a userbase da plataforma e voltar a remunerar bem seus motoristas.

Claro que foi uma bosta, pois aí a Uber ficou sendo concorrente do ônibus pelo preço, e qualquer pé sujo entrava no seu carro pra se locomover pagando 7 reais.
Foi aí que percebi que a Uber estava fadada a ser apenas um meio de sobreviver, não de realmente ganhar dinheiro e viver bem.
Tive a ideia de abrir a empresa de transporte de passageiros. Mandei fazer cartões personalizados, recibos, peguei uma máquina de cartão e meu foco era usar a Uber para construir a minha Userbase. Todo cidadão que entrava no meu carro, ganhava além de agua e balinhas, o meu cartão.

Oferecia um serviço de qualidade com um preço justo, trabalhando 24h por dia e 7 dias por semana.
Meu objetivo era focar no trabalho noturno, pegando empresários em pontos específicos da cidade para apresentar meu serviço.

A tática deu certo, e foi assim que consegui uma grande quantidade de clientes 'fora da Uber'. Passei a ter inclusive mais serviço do que podia prestar, então passei a terceirizar o serviço para outros motoristas. Cobrava os mesmos 25% de taxa que a Uber cobrava, e mesmo quando não estava dirigindo estava ganhando algum dinheiro.

Eu e meu pai, fazendo transfer para o Tomorrowland

A coisa voltou a andar, e passei a usar a Uber só como meio de captação de clientes e para conhecer pessoas interessantes. Era melhor que o Tinder e ainda me dava alguma grana. A empresa cresceu e decidi que era hora de comprar mais um carro. Mas vamos deixar essa parte da história para um outro post.

Numa bela noite de quinta feira, peguei 2 gringos no cambuí. Um entrou no carro e desmaiou no banco de trás. O outro, ainda lúcido e com um péssimo português falou: "Vamos para minha casa que é proxima daqui, depois tu leva meu amigo até Sousas na casa dele. Ele não fala uma palavra em português, só inglês e alemão. O pagamento está no cartão, então não precisa nem se preocupar em receber"

Quando o primeiro gringo chegou em sua casa, o segundo despertou e começou a conversar comigo.
Meu inglês era quase intermediário, bem técnico e eu ramelei um monte pra conversar com ele. No fim da viagem, dei meu cartão e ofereci meus serviços. Ele então disse que era um alto executivo da Mercedes Benz, que fazia viagens semanais para Guarulhos e que havia gostado do meu serviço. Disse que em breve entraria em contato comigo.

Se eu não me vestisse assim, provavelmente não teria ganhado a Mercedes Benz.


Puta merda, ganhei na loteria. Tudo o que eu precisava era de um cliente grande com um bom volume de serviços! O gringo ainda levou um mês para me procurar e fazermos a primeira viagem.
Acertamos o valor, e ele me passou sua agenda.

Domingo as 4h da manhã, seguia para Guarulhos.
Segunda as 22h, buscava ele em Guarulhos.
Terça levava ele pro bar as 19 e buscava as 22h
Quarta, levava pra Gru as 05h da manhã, buscava na sexta as 23h.

Faturava mil reais por semana com ele. Passava entre 1,5 e 2h com esse cara no carro, e a consequência foi que melhorei MUITO minha conversação em inglês, por obrigação. Além dele, haviam outros executivos da Mercedes Benz que eu levava pra cima e pra baixo e tudo corria muito bem. Meus ganhos melhoraram muito, e voltei a ter um pouco de fôlego na vida.

Foi aí que conheci pessoas ricas de verdade.


Tive alguns acidentes com o Jetta (bateram em mim 3x em 2016) então passei algum tempo com carro alugado. A exigência, sempre foi andar em carros alemães. Então minhas opções não eram muitas. Jetta, Passat, Mercedes, eram o que estavam no meu orçamento. Tenho algumas histórias muito boas dessa época, e de início a ideia era fazer um blog anônimo para poder contar todas... Não sei o quanto vou me aprofundar aqui, tendo em vista que tô colocando minha cara em todas as postagens. Mas tentarei de maneira sutil, ir o mais profundo que a legalidade permite.

A confiança então aumentou, pois sempre tive 'pontualidade britânica'. Se marcavamos as 19h, eu chegava 18h55 e avisava que estava disponível. Inclusive teve um episódio em que fui buscar o Phillip com o gringo no carro, e ele disse que o Phillip estaria na portaria nos aguardando. Questionei: Será que já desceu? Ao que me respondeu: "He is a German. He's never late.' E realmente, eles cronometram os segundos para cumprir qualquer cronograma.

Com a confiança, vieram os serviços extras. Virei um personal concierge. Se ele queria cigarros as 3h da manhã, me ligava e eu ia buscar. Se quisesse mulheres as 3h da manhã, eu arrumava e entregava. Isso merece até um ponto a parte, e vou quebrar aqui a postagem para começarmos sobre o ápice da parceria.

Se gostou, comenta! Seus sem costume do caralho. Todo dia o Blog tem 40, 50 leitores diferentes e ninguém comenta nada.

Enjoy :)

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